Segunda-Feira, 27 de Dezembro de 2021

Passar a vida a lamentar a felicidade perdida é apanágio de velhos chatos, fadados a terminar seus dias na solidão

Dormíamos num quarto enorme, com colchões espalhados pelo chão. Quando todos se calavam, eu resistia ao sono, para pensar nas aventuras que me aguardavam no dia seguinte.

Em minha lembrança, foi a primeira vez que convivi com a felicidade plena, persistente e duradoura, substituída por uma tristeza dolorida que me fez chorar quando as férias terminaram.

Na vida adulta, a felicidade é caprichosa como a mulher mais desejada. Inútil aguardar que venha a nós, é preciso persegui-la com afinco e estar atento para não a deixar passar despercebida no meio das atribulações cotidianas, porque o menor descuido é capaz de afugentá-la por tempo indeterminado. Ela é inimiga dos afoitos que a cortejam com intenções imediatas, para entregar-se exige dedicação extrema, sabedoria, desprendimento, perspicácia e sobretudo paciência.

A diferença fundamental entre a felicidade da criança e aquela do adulto não está na intensidade da sensação de prazer que toma conta da alma, exalta as cores do mundo e faz a vida pulsar forte, exuberante, mas na duração desse estado. Os momentos felizes dos adultos duram menos porque são interrompidos pelas preocupações com a lida diária, por pensamentos negativos resultantes dos desencontros das relações humanas e pelo medo causado por experiências traumáticas.

A complexidade da vida adulta desvia nossa atenção e nos impede de reconhecer a felicidade que está por perto, limitação que a transforma em bem transcendental, sempre distante, dependente de acontecimentos grandiosos e  improváveis que sequer conseguimos definir quais seriam.

É essa incapacidade de lidar com o presente que nos faz colocá-la num ponto futuro ou relegá-la ao passado remoto. Costumo duvidar das recordações de momentos idílicos vividos anteriormente; na maioria das vezes, não passam de armadilhas da memória, faculdade da mente especializada em editar fatos passados para retirar deles o conteúdo nefasto.

Passar a vida a lamentar a felicidade perdida é apanágio de velhos chatos, fadados a terminar seus dias na solidão.

Depois dessas considerações tão filosófico-literárias quanto os postais de boas festas mais bregas que recebi, caríssimo leitor, só me resta agradecer a atenção e desejar-lhe feliz Ano-Novo.

 

Fonte: https://drauziovarella.uol.com.br

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